Sharenting: a exposição infantil que começa dentro de casa
Compartilhar momentos da infância pode parecer inofensivo, mas a exposição excessiva nas redes sociais pode comprometer a privacidade, a segurança e o futuro digital das crianças.
Sheron Mendes
Autora do primeiro material didático para ensino fundamental sobre uso consciente de telas e desenvolvimento de habilidades inter e intrapessoais; pesquisadora e professora de pós graduação em Neurociências.

Sharenting. Talvez você nunca tenha ouvido essa palavra. Mas há uma grande chance de já ter praticado e de ter exposto seu filho a riscos que você sequer imagina.
É assim que pesquisadores denominam o hábito de pais e responsáveis compartilharem fotografias, vídeos e informações sobre os filhos nas redes sociais. O termo nasceu da união das palavras inglesas share (compartilhar) e parenting (parentalidade) e descreve um comportamento que se tornou comum na era digital: registrar e publicar momentos da infância para os seguidores.
Houve um tempo em que as primeiras palavras, as fotografias do banho e os momentos mais engraçados da infância permaneciam guardados em álbuns de família, acessíveis apenas a quem fazia parte daquela história. Hoje, basta um clique para que aquilo que antes era privado se torne público, compartilhável e editável. Pela primeira vez na história, milhões de crianças começam a construir uma identidade digital antes mesmo de compreender o que significa privacidade.
Os riscos vão além do constrangimento futuro, como ser lembrado eternamente como o “aquele garoto do meme”. Uma única fotografia pode revelar a escola onde a criança estuda, os lugares que frequenta, sua rotina e outros detalhes capazes de facilitar golpes, fraudes, falsificações de identidade, manipulações por inteligência artificial e diferentes formas de exploração. Depois de publicada, a imagem deixa de estar completamente sob o controle da família. Ela pode ser copiada, armazenada, redistribuída e permanecer circulando por muitos anos, mesmo após ser apagada do perfil original.
Esse cenário começa a chamar a atenção da comunidade científica. Um estudo publicado em 2024 no Italian Journal of Pediatrics revelou que 75% dos pais entrevistados compartilhavam conteúdos sobre os filhos e 74,4% publicavam fotografias ou vídeos em que ela aparecia claramente. O dado mais preocupante foi outro: 93% dos participantes não demonstraram conhecimento adequado sobre os riscos relacionados à privacidade, à permanência das publicações e ao uso indevido das imagens.
No Brasil, entretanto, existe um motivo adicional para preocupação: quase não sabemos a dimensão desse fenômeno. Apesar de contarmos com importantes instrumentos de proteção, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Geral de Proteção de Dados e o ECA Digital, ainda faltam estudos nacionais capazes de responder às perguntas básicas. Quantos pais publicam imagens dos filhos? Eles estão cientes da gama de problemas e riscos que envolvem essa publicação? A ausência desses dados mostra a fragilidade do tema pouco discutido sobre a proteção da infância brasileira.
Vale uma reflexão adicional. Você conhece todas as pessoas que acompanham seu perfil? Confiaria em cada uma delas o álbum completo da infância do seu filho?
O relatório Disrupting Harm Brasil, coordenado pelo UNICEF, mostrou que 19% dos adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos relataram ter sofrido algum tipo de abuso ou exploração sexual facilitada pela tecnologia em apenas um ano. Em 49% dos casos, o autor era alguém conhecido da vítima. Isso quer dizer que compartilhar a rotina do seu filho amplia a exposição digital e consequentemente sua vulnerabilidade.
A discussão sobre sharenting não pretende culpabilizar pais e mães. O convite é outro, transformar a publicação impulsiva em uma escolha consciente. Afinal, a infância passa depressa. A internet, porém, costuma ter uma memória muito maior do que a nossa.
Sheron Mendes é neurobióloga, autora pela Compass Editora, pesquisadora e professora universitária.